quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Artista plástico denuncia maus tratos aos cães de rua

Projeto fotográfico registra o dia-a-dia dos vira-latas em Salvador



por Tom Correia



Negão é um vira-lata de grande porte que perambula pelas praças do Rio Vermelho. Arredio, não permite muito a aproximação dos humanos e sobrevive pescando nas praias das redondezas. Ele é uma espécie de líder dos outros cães que habitam a área que não nasceram com a sorte e o pedigree de poodles, pitbulls ou dobermanns. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, estima-se que, atualmente, 260 mil cães e gatos vivem à própria sorte na capital baiana.


Foram esses animais que, há dois anos, chamaram a atenção do artista plástico e grafiteiro Denis Sena. Após notar em meio à paisagem urbana os cachorros que são rejeitados pela sociedade, iniciou o Projeto Vira-Raça, fotografando todos aqueles que encontra ao acaso pelas ruas de Salvador. Atualmente, ele mantém um acervo com mais de quinhentas fotografias de cachorros de rua flagrados em situações das mais variadas. Remexendo no lixo, atravessando as pistas movimentadas da cidade ou, até mesmo, sendo agredidos a pontapés. “Quero provocar uma reflexão a partir das imagens. Precisamos despertar nosso sentimento de solidariedade em relação a esses animais”, afirma Sena, que se auto-define como um operário cultural.


No último mês de agosto, o artista plástico montou uma exposição com trinta imagens de cães de rua no Terreiro Ibá Oji Tundê, no Cabula, do qual é freqüentador e adepto. Foi lá que o fotógrafo Marcelo Reis conheceu o trabalho de Sena e o convidou para participar do projeto “A Gosto da Fotografia”. “O que mais me agradou no trabalho de Denis, foi o lado artístico em conjunto com a sua proposta arrojada, algo que só havia visto antes nas fotos de Miguel Rio Branco”, declara Reis. Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo artista para dar continuidade ao Vira-raça é a falta de apoio, como conseguir espaço para expor em galerias da cidade. Além disso, o risco de assaltos é constante. Numa das suas incursões pelo bairro da Pituba em busca de novas imagens, Sena foi atacado por um grupo de meninos de rua, que levaram sua máquina digital.


O artista plástico conta hoje com a colaboração da jornalista Carol Garcia, que também se engajou na defesa dos animais. “Não quero fazer do vira-raça uso comercial, meu trabalho é de denúncia e sensibilização”, afirma.


A produção atual ainda não tem data para finalização e Sena pretende criar o projeto “Plasticidade Digital” montado a partir das fotos manipuladas do Vira-raça. Se depender da vontade do artista, Pretinha, Rusky, Big, Perigo, Porcina e Belinha, cães que marcaram sua vida desde a infância, continuarão a despertar a sensibilidade das pessoas através de suas poses fotográficas e espontâneas.



Novembro 2007

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denissena.com

Vira-raça

Vira-raça
Denissena e a cadela belinha do Ibá Oji Tundê

Caes de rua

Caes de rua
Verdadeiro amigo

Vira-raça - Amem os caes de rua

Vira-raça



A fotografia tem destas facetas. Faz com que apontemos nossos olhares para situações invisíveis aos nossos próprios olhos, nos faz vê além da nossa realidade. O que teria de fotográfico num ensaio sobre os caninos, nossos culturalmente, melhores amigos? Teria o mesmo que as imagens exóticas dos outros mundos orientais, dos negros homens de Pierre Verger, ou o mesmo que dos trabalhadores de Sebastião Salgado, tem também o enredo de uma saga de quem vive sendo atropelado pela própria sorte de ter nascido. Tem dignidade e um laço de memória que ligam o ver ao sentir. Um ensaio que nos faz refletir sobre, não somente o sofrimento, mas a felicidade. Que nos faz parar e pensar. Nosso tempo perdido, nosso tempo não utilizado, na correria da vida moderna. Esquecemos de comportamentos tão viscerais, tão infantis, como o de brincar com nossos animais, brincando nos tornamos mais humanos. Visto a carga de informações e modelos de vida que recebemos diariamente que mais nos afasta do que aproxima de nós mesmos. Esta é a razão deste ensaio fotográfico, feito a partir de uma pesquisa desenvolvida por Denissena [operário cultural], ao longo de um tempo percorrido por ruas da grande cidade. Acredito. É para mostrar um pouco de nós mesmo. Desenvolvido sem a pretensão de virar uma amostra fotográfica, uma exposição, visto que Denissena não se define como fotógrafo e que, ao mesmo tempo, age exatamente como um e diria mais, como um foto pesquisador, aquele que utiliza a imagem para representar e transformar fatos isolados em um grande ensaio-situação, presente no nosso dia-a-dia. A fotografia reconhecida como uma das maiores representantes da nossa arte moderna, torna-se mais contemporânea, quando se ocupa de representações de realidades invisíveis aos nossos tempos, nossos tempos modernos. Este é um exemplo bastante estrutural sobre a nova face de uma mesma da fotografia, que cuida agora de definir não mais o que vemos, mas de transformar coisas vistas em conceitos, transformar conceitos em sentimentos.



Marcelo Reis

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Operário cultural. Acredita na arte como veículo de comunicação e transformação social. www.denissena.com

Plasticidade digital_ vira-raça

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Cão de rua

III Festival Nacional da Fotographia

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Exposição Vira-raça no Ilê Axé Ibá Oji Tundê, Quilombo cabula 1

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Vira-raça .2006